Joaquim Barbosa: ‘Negro Presidenciável, após 130 da Abolição da Escravatura’

Resta saber se país racista como o Brasil suportaria um presidente negro.

“O Choque das Raças ou o Presidente Negro” imagina tecnologia prima da internet, práticas eugênicas, partido feminista e a organização política dos negros. Narra a triangulação dos americanos nas eleições de 2228, quando a divisão dos brancos, entre o Partido Feminino e o Masculino, redunda na vitória do líder da Associação Negra.

O enredo volta à cabeça quando um negro se apresenta com viabilidade à cadeira presidencial no aniversário de 130 anos da abolição da escravidão no Brasil.

joaquim barbosa cercado de repórteres
O ex ministro do STF Joaquim Barbosa fala com a imprensa após uma reunião com políticos do PSB. – Pedro Ladeira/Folhapress.

Vingando ou não, a candidatura de Joaquim Barbosa já agitou a fábrica política.

À direita, celebra-se o “candidato-novidade”, moda de Miami a Paris. O mercado vem testando produtos nessa linha, de apresentador de TV a militar, passando por empresário. O lançamento do juiz nasce da boa aceitação da tendência da temporada, os magistrados na política. Barbosa chegou aos píncaros num campo, pode emplacar no outro.

Para vendedores desse sonho, a cor do presidente, que assombrava Lobato, não vem (ao menos ainda) ao caso. Importa sua embalagem. Chegaria às urnas envolto na toga de super-herói anticorrupção; campeão da moralidade pública capaz de salvar a política dos políticos.

Já aos que marcham do outro lado da cerca, o juiz perturba. Sem declarar em que time joga, acendeu luz vermelha para corredores individuais, daí os ensaios de uma equipe Ciro-Haddad. Barbosa assusta ao avançar sobre a simbologia da esquerda.

O outro emblema poderoso é sua negritude. O juiz pode avançar onde Marina Silva titubeou e se lançar a representante da maioria étnica.

Está quieto no quesito, mas seu estilo lobo solitário ameaça a exclusividade de movimento negro e aliados brandirem a ação afirmativa. É o que se presume de sua reação à ativista da Negritude Socialista que tentava selfie conjunta. Negou a carona.

Sua exasperação marca uma distância em relação aos que já empreendem política em torno da pauta racial. Mas também ilustra como se pode ser exímio juiz e péssimo político.

Lula domina a arte de lidar com pessoas, da rodinha à multidão. Ausculta a pulsação coletiva antes de agir. Barbosa é técnico de gabinete, conhece mais dosimetria que empatia. Pode cair no precipício em cujas beiradas trafega Ciro Gomes e morrer pela boca.

Pesando isso, o juiz, como o animador de TV, pode avaliar que é tarde para novo ofício. Mas a mera cogitação de candidato negro à Presidência impacta o imaginário nacional.

Em papéis discrepantes de Nastácia e tio Barnabé, artistas vêm oferecendo modelos alternativos de comportamento para crianças negras. Mas a cultura brasileira sempre foi permeável, a hora do vamos ver é a do mando. E um presidente negro era até agora possibilidade fora do horizonte.

É que a desigualdade racial transcende o imaginário. Um marco de sua história aniversaria este maio. Lei curta e seca aboliu a escravidão. Depois a elite imperial distribuiu títulos de nobreza a ex-senhores, sem garantir direitos ou emprego a ex-escravos. Desde então, essa desigualdade se reproduz e estrutura as relações cotidianas e as estatísticas sociodemográficas.

Os negros são maioria em empregos de menor qualificação e salário, em prisões e favelas. E raríssimos em cargos de poder e dinheiro. Um presidente negro, apesar de capa e martelo, não esmagará essa Medusa, de muitas cabeças e o dobro de olhos envenenados. Mas pode bagunçar a República do Sítio do Pica Pau Amarelo se puser a questão na mesa, com a legitimidade que pele e biografia lhe conferem.

Combinando bandeira da direita —anticorrupção, que o PT já não pode empunhar— e símbolos da esquerda —defensor de pobres e oprimidos—, Barbosa chega forte ao páreo. Resta saber se país racista suportaria presidente negro.

No livro de Lobato, um negro chega à Casa Branca, mas jamais toma posse, ao passo que o Brasil de 2228 se dividiu em dois países: uma “república tropical”, com suas “convulsões”, e a “grande República do Paraná”.

 Angela Alonso

É professora do departamento de sociologia da USP e preside o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/angela-alonso/2018/05/joaquim-barbosa-combina-simbolos-de-direita-e-esquerda-e-chega-forte-ao-pareo.shtml

5 comentários em “Joaquim Barbosa: ‘Negro Presidenciável, após 130 da Abolição da Escravatura’

  • 06/05/2018 em 10:07
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    De vemos escolher um presidente pela cor? Não! Não devemos. Tem sido que escolher por outras qualidades e a principal delas é a honestidade, se o candidato for honesto não importa a cor, pode ser até um avatar. Ser negros não significa ser honesto, competente, e nem merecedor de ocupar um cargo tão importante.

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  • 06/05/2018 em 11:23
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    Não é pela cor que se escolhe um presidente e sim pelos seus feitos, por suas propostas.
    Infelizmente o que tenho a dizer de Joaquim Barbosa é que num momento crucial na politica do Brasil, onde ele tinha de ser o punho de aço no STF ele se afastou, sumiu, foi embora pra Maiami alegando que tinha problemas na coluna que o impediam de trabalhar, se naquela ocasiao ja nao poderia mais trabalhar porque será que a saú de teve uma melhora repentina, é simples ele é mais uma das crias desta politica esquerdista que esta destruindo o país desde a abertura politica de 1985.
    Ele teve sua chance de ajudar o país enquanto estava no STF, se acovardou e foi embora deixando nós brasileiros entregues a esta corja de políticos.
    BOLSONARO PRESIDENTE!!

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  • 07/05/2018 em 01:36
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    ISSO ME FAZ LEMBRAR A CAMPANHA DA DILMA: “PRIMEIRA MULHER NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA”. AGORA, VEM O QUIM QUIM: “PRIMEIRO NEGRO NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA”.

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